domingo, 2 de outubro de 2011

Homilia do 27º. Domingo do Tempo Comum – A

27º. Domingo do Tempo Comum – A



A história humana, aos olhos da fé, pode ser sempre interpretada pelo binômio dom-tarefa. A vida é um presente de Deus, o que recebemos é uma graça, mas sempre Deus pede a nossa resposta - o nosso comprometimento. É nossa tarefa cultivarmos o dom recebido.

O Evangelho e a primeira leitura nos falam de uma decepção divina. Deus ama tanto, entrega tanto carinho, que espera uma resposta positiva. Mesmo diante da predileção divina, o Povo de Israel fracassou várias vezes e o próprio Filho de Deus foi rejeitado, jogado para fora da própria Cidade Santa: o Calvário é do lado de fora dos muros de Jerusalém.

Os judeus da época de Jesus queriam guardar os frutos da vinha só para si. Não queriam partilhar com os demais, julgavam-se exclusivos; faziam leis amargas e de exclusão, ao invés de gerar a acolhida alegre. Este foi um dos motivos da rejeição do filho do dono da vinha, pois eles não poderiam aceitar a proposta de abertura de Jesus, que afetava as estruturas dos líderes da época.

A Igreja é a vinha do presente e nós os vinhateiros. Guardaremos os frutos só para nós? Faremos do Evangelho um privilégio que nos acomoda (que nos faz nos sentir salvos) ou vamos nos abrir para o mundo? A vinha é uma estrutura necessária, porém só tem sentido se está em função dos frutos. A Igreja, do mesmo modo, apenas é autêntica se está em função da construção do Reino, produzindo frutos de justiça, liberdade, misericórdia, fraternidade, perdão e paz... O principal fruto da vinha deve ser a missão que edifica uma Igreja aberta a todos, acolhedora, na qual os seus membros dão testemunho da alegria de pertencer a Vinha. O Reino de Deus jamais poderá ser monopólio de nenhuma estrutura, de nenhuma instituição religiosa, nem do clero ou dos especialistas em religião. O Reino de Deus cresce pelo mistério do Espírito. Se nós que recebemos o dom e a tarefa de cultivá-lo em primeira instância não o fizermos, outros o farão. Que o Reino não nos seja tirado.

São Paulo nos deixa uma lista de frutos que devem fazer parte da cesta de quem colhe os dons da Vinha: a verdade, o respeito, a pureza, o amor, a honra, a virtude. Se lêssemos os versículos que antecedem o texto proposto para este domingo, veríamos que São Paulo está falando da brevidade do tempo. Ou seja, a vida é breve. Deste modo, devemos viver como peregrinos deste mundo, sabendo da urgência de frutificar. Diante dos problemas da vida, apresentemos tudo e coloquemos nossas dificuldades nas mãos do dono da Vinha, pois Ele sabe o que faz. Vivendo de acordo com a Palavra do Senhor, vem o dom da paz: “Assim, o Deus da Paz estará conosco!”.

A vinha, portanto, é também o símbolo da nossa vida. Hoje, Deus continua nos dando muito: a vida, a fé, suas bênçãos... O que estamos fazendo com os presentes que ele nos deu? A nossa vida necessita de cultivo, de cuidados. Deve produzir frutos bons, não amargos. Quando chegarmos ao final de nossa existência terrena, deveremos olhar para trás e perceber que deixamos um legado, que simplesmente não passamos pela vida, mas construímos frutos que ficam para a eternidade. No presente que o Senhor nos dá como graça, podemos decidir sobre o cultivo de nossa vinha.

“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se agora a pedra angular”. Se o ser humano desrespeitou a vinha pelos frutos podres que produziu, Deus enviou seu próprio Filho. Ao ser morto, Deus transformou nosso pecado em graça, a violência horrenda da cruz em sinal de amor-doação até as últimas consequências. Deus revela sua bondade em nossa maldade. Agora permanece como a pedra angular. Nossa vida deve ser alicerçada nesta pedra firme para que não desmorone. Assim, não por nossas forças, mas pela graça dele, teremos uma construção firme que não será destruída, uma vinha que não será arrancada.

Pe. Roberto Nentwig

"Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força!"
(2Cor 12,9)

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